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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Raimundo Gomes de Lacerda (Raimundo Sacristão), 15 de fevereiro de 1926 a 31de julho de 1995


    
             Nascido em Cajazeiras-PB, Raimundo Sacristão era filho de Manoel Gomes de Lacerda e Isabel Gomes de Albuquerque, tendo por irmão Benedito Lacerda (in memória), estudou em Cajazeiras, e ainda adolescente foi morar no Rio de Janeiro, quando retornou, Raimundo, bem jovem ainda, a convite do Mons. Vicente de Freitas (grande visionário e bem feitor desta cidade), veio morar em Pombal, e aqui chegando ficou trabalhando como Sacristão na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Ele exerceu a função de sacristão, trabalhando desde o tempo do Monsenhor Vicente de Freitas, estendendo-se até o período do Monsenhor Oriel Antônio Fernandes (ambos in memória, Cônego Oriel , está lembrado neste blog).

Raimundo Sacristão, contraiu núpcias com Maria das Dores de Medeiros, filha de Inácio Adauto de Medeiros e Liliosa Nóbrega de Medeiros, em 10 de fevereiro de 1950, perante o Pe. Vicente Freitas, e a escrivã Guiomar Tavares Formiga (casamento este com efeito civil), e desta união nasceram quatro filhos: Fatima, Marcos, Lucia e Raimundo Filho.


No ano de 1958, Raimundo Sacristão cria o serviço de Alto-Falantes de Pombal, ao mesmo passo que foi adquirido pelo Cong`Oriel, o som da igreja matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso (segundo Dulce, sua amiga particular, as cornetas eram seu chodó, ficava feliz quando alguém elogiava o sistema de som da nova matriz, e uma arara quando diziam um tantinho assim delas!). Raimundo denominou o seu empreendimento de Rádio Difusora Maringá. Tinha uma visão de futuro alargada, e o nome não poderia ser melhor, como Pombal é também conhecida por Terra de Maringá (por causa da lenda da Cabocla), caiu como uma luva! A difusora foi de fato um sucesso, uma inovação para esta nossa pequena cidade em todos os aspectos possíveis.
A Difusora Rádio Maringá revelou nomes como José Geraldo, Zeilto Trajano(in memrória, lembrado neste blog), e o pequeno Clemildo Brunet, que estreava com apenas 12 anos de idade, já demonstrando sua forte tendência para o rádio. Ela marcou época em Pombal, através dos seus “cabaços” – o termo é de Genival Severo, dado aos autofalantes colocados sempre nos lugares mais altos e movimentados da cidade, tais como a Coluna da Hora e de fronte ao açougue. Raimundo sacristão e sua equipe, que envolvia apenas Zeilto Trajano e ele, a priori, faziam as coberturas externas, com o sistema de som, como era o caso da festa da Padroeira Nossa Senhora do Bom Sucesso, quando eram realizadas, a parte social ao lado da praça Getúlio Vargas, e a do Rosário(Festa de Setembro e Festa de Outubro, antigamente).
Soube por Genival Severo que  no ano de 1958, o Brasil foi campeão Mundial, e Raimundo ou Zeilto (não recordou direito), havia comprado um disco de cera com as músicas de todas as seleções. Bom numa tarde Zeilto Trajano, colocou o disco para tocar, e deixou Clemildo no comando do equipamento de som, saiu para escutar as cornetas que vibravam com as belas canções e na esquina bem sentado num banquinho, Zeilto, com toda polpa, fumando seu cigarro, rodeado pelos transeuntes que perplexos rapidamente se aproximavam dele. Genival disse: -‘’ Eu sei que passou um gaiato nos estúdios da difusora Maringá e disse para Clemildo, que era novato: - Olhe, Zeilto tá furioso com você, porque o horário é para música e você esta tocando este disco de jogo aí! Clemildo, rapidamente trocou o disco, confiando na palavra do homem! Quando parou de tocar o disco Zeilto Trajano, correu para os estúdios, para saber o que havia acontecido, então arrancou o disco que estava tocando e jogou pela janela! Neste momento acabou caindo nos pés de Raimundo Sacristão, e quebrou, aí foi um fuá maior do mundo, e terminou Raimundo mandando Zeilto ir embora, e depois se arrependeu, chamou de volta (anos mais tarde Zeilto Trajano, saiu, mas para fazer carreira na rádio Alto Piranhas, de propriedade da Diocese de Cajazeiras. Na época, o jovem locutor foi apresentado pelo então padre Martinho Salgado, que o levou numa Rural, junto com Genival Severo e Arruda, relatou o Dr. Joaquim, ex- juiz de pequenas causas).
Genival Severo lembrou uma das presepadas de Zeilto Trajano dizendo: -“Adamastor (in memória), era que sabia muita coisa sobre Zeilto, pois também era da banda. Agora me parece que a turma saiu para tocar numa cidade vizinha e foram em cima de um caminhão, e todos tinham de ficar juntinhos. Rapaz, como não podiam si mexer, nem como parar, Zeito urinou nas calças de um colega do trombone que estava a sua frente! Virgem, quando chegaram lá o pobre estava todo mijado, aí fizeram aquela algazarra, terminou que o rapaz nem queria descer!”
Raimundo Filho disse: -‘’Ainda bem criança, Zeilto Trajano passou a fazer parte do meu cotidiano pondo um microfone em minha frente pra que participasse dos programas de auditório na rádio do meu pai, a Maringá de Pombal, sua voz grave e encorpada ainda permanece em minha memória, lembrando também dos bons tempos da Discoteca Dinamite quando os políticos eram postos no canto da parede na Radio Alto Piranhas’’.
Genival Severo comentou nestes termos: -‘’Nos invernos pesados da década de 60, Raimundo mandava Zeilto consertar as cornetas afixadas no Mercado Público, as que o vento virava, e quando ele subia, vinha por cima das telhas quebrando o telhado alheio. Daí a pouco chegavam as raclamações, sobre as telhas quebradas, aí Raimundo gritava para Zeilto, que ainda estava lá no alto: -Tu vai me quebrar desse jeito Zeilto, pelo amor de Deus!’’ E continuou lembrando: -‘’Por volta do ano de 1963, eu peguei amizade com Clemildo Brunet, era bem novinho, voz fina ainda. E um dia ele me convidou para ir aos estúdios da difusora Maringá, que funcionava aonde é a loja de David hoje, na Rua João Pessoa, mas as bocas de som, eram na coluna da hora, no mercado como falei anteriormente, e no açougue. Rapaz  quando eu entrei, fiquei besta com tudo que vi, pois eu era alucinado por difusora! Aí  com um pedaço chegou Raimundo, e ele era todo bruto, foi logo dizendo: - Não quero menino aqui, vá embora! Virgem! Eu saí envergonhado, meio sem jeito e todo desgostoso! Os horários da difusora eram de 09hs00min até as 11hs00min e das 15hs00min as 18hs00min.”
 Genival também lembrou , que as festas da padroeira, parte social, começou  a perder forças, então Raimundo transferiu seu equipamento para o lago centenário. E ele comentou: -‘’ Raimundo  colocava o disco para tocar e ia para a mesa dos amigos, pois gostava de tomar uma cervejinha. Quando o disco terminava o lado A, ele saia e vinha da mesa onde estava e subia próximo a coluna da hora para trocar o disco! Eu já havia decorado o sistema do aparelho de som (era um amplificador PHILLIPS meio alto, cerca de 30 a 40cm, os botões de comando eram enfileirados; o primeiro, girando para a esquerda, abria o microfone e para a direita o toca disco), então o disco acabou, e antes do dono se levantar eu o troquei! Na mesma hora apareceu um rapaz para dar um aviso, e pediu que eu abrisse para fazer, e eu fiz! Raimundo chegou na hora e não me reconheceu, já estava quentão. Ele simplesmente perguntou: -Rapaz você sabe mexer com som?! Então pediu que eu o ajudasse; fiquei  até tarde da noite lá. Depois deste fato nos tornamos bons amigos, pois outro vez ele veio me chamar para cobrir a festa de são Francisco em São Bentinho, no ano de 1970(na época comunidade), e a festa seria de nós dois. Ele havia dito, que nós iríamos para fazer a cobertura daquele evento religioso, recebendo e passando os recadinhos, bem como atender os pedidos musicais a C$1.000,00(Um Cruzeiro),  foi como prometera! As moças vinham direto até mim. Ora eu já ia de graça, só pelo prazer de aprender mais, quanto mais recebendo!’’
            Fatima lembrou: -‘’ Ainda pequena, sonhava em ser cantora. Eu pegava o microfone para cantar, e enquanto cantava, pensava que toda cidade estava me ouvindo, só que eu descobri, que  o meu pai, desligava os microfones! Aí eu esperava Zeilto Trajano chegar para eu pedir para ele ligar o microfone e assim eu poder cantar, mas todos dois me enganavam.’’
Raimundo, exerceu suas atividades como Agente Administrativo no Ministério do Trabalho, ainda em Pombal por volta 1968, no prédio ao lado da casa paroquial, ao lado da Nova matriz, onde funcionou uma gráfica e hoje funcionam dois prédios comerciais. Uma pessoa deu conta que Raimundo era muito dado ao trabalho, mas quando bebia ficava completamente diferente daquilo que era, pois chingava sozinho, falava alto, tudo influencia do álcool, pois no normal ele era atencioso e educado!
Maciel Gonzaga (pombalense, que é advogado e jornalista), falou: -‘’No início da década de 60 já era seu ajudante como “coroinha”, tocava o sino, ajudava nas missas, nos batizados e casamentos, etc. Mas, nas horas vagas o acompanhava até o estúdio da Difusora Maringá e lá ouvia e apreciava o trabalho dos locutores. Eu passei a me interessar pelo rádio. Estava me descobrindo. Aí Raimundo decidiu não mais levar à frente o seu projeto da Difusora Maringá e optou por disputar um cargo de vereador – que era o seu grande sonho- entregou o bastão para Clemildo Brunet, que logo criou o Serviço de Alto-Falantes A Voz da Cidade. Aí, eu não perdi tempo e tomei a minha primeira decisão na vida: Abandonei o cargo de ajudante de Sacristão, e fui trabalhar com Clemildo, Zeilto, Zé Geraldo, Genival Severo, Eurico Donato e tantos outros! Anos depois, encontrei-me com Raimundo Sacristão em Campina Grande, e ele ficou hospedado na minha casa, no bairro do Catolé, por dois ou três dias.  Já trabalhando na Rádio Caturité o levei até a emissora e apresentei aos amigos. Lembro-me de uma frase dele se dirigindo ao diretor-superintendente da rádio, o ex-padre José Cursino de Siqueira: Cuide bem desse neguinho. Ele é de ouro!”

               No ano de 1977 resolveu levar a família para morar em João Pessoa, para facilitar os estudos dos filhos, tentar algo melhor para todos os seus. Vitima de um aneurisma abdominal, em 1995, Raimundo Sacristão, partiu.
No ano de  2007, Raimundo foi lembrado pelo amigo Clemildo Brunet que concedeu aos seus o Troféu Imprensa da cidade de Pombal, como um agradecimento. Clemildo falou: - “Marcou, eu era controlista e ele me deu a oportunidade de ser locutor incentivado por Zeito Trajano. Ele encerrou com a difusora em 1964 a minha veio em 1966, mas já foram novos equipamentos, e se sintonizava nos rádios das casas, tinha um transmissor de ondas curtas, pegava na segunda faixa do receptor, o nome da minha era A Voz da Cidade, a gente não podia chamar de rádio, pois não tinha registro, era clandestina!”
A Raimundo sacristão o nosso muito obrigado, sua contribuição foi única para nosso povo e sua história. Que o Deus da vida o abençoe, o recompense e conceda-te a paz.

Texto  adaptado de Clemildo Brunet, por Paulo Sérgio, www.contandosaudade.blogspot.com.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

José Benigno de Sousa (Lelé), 22 de outubro de 1910 a 12 de janeiro de 1996


Seu Lelé(popularmente), era natural de Pombal, filho de Filemon Estevão de Sousa e Ana Benigna de Sousa. Ele teve por irmãos: Mestre   Álvaro, Maria das Dores e Benigna(Lourdes). Seus estudos se deram em escola particular no ensino primário em Pombal.
            Segundo Jerdivan Nóbrega, a sua família  por parte de sua avó paterna, como é comum em famílias judaicas,  dispensava um respeito todo especial ao seu  patriarca, que funcionava como uma espécie de líder conselheiro. Do conhecimento de Jerdivan as raízes lançadas em pombal, se deu com a chegada  dos irmãos João Ignácio Cardoso D’Aarão e Francisco,  no começo do século XIX, que eram originários do sítio Jacoca, hoje Conde, do engenho Forte  Velho e do engenho Tibiri,  localizado no  município de Santa Rita’’.
Lelé casou-se a 1º de Janeiro de 1940 com Maria do Carmo Moura, com 22 anos de idade e filha de Guilhermino  A. de Moura e Francisca Alves de Lima, mas partiu aos 24 de setembro de 1940. Sete anos depois, ele decide recomeçar a sua vida contraindo matrimônio mais uma vez aos 20 de setembro 1947 com Elisa Abrantes de Sousa(in memória recentemente), que era natural de Sousa, filha de Pedro Inácio da Nóbrega e dona Cândida Abrantes da Nóbrega. Desta união nasceram: Eliezer Gandhi e Maria do Socorro (in memória), Elisane, Verneck Abrantes(o escritor), Eliene, José Filho, Francisco José  e Cândida Abrantes de Sousa.
Exerceu várias atividades em nossa cidade. Foi agricultor, trabalhando nas terras da sua mãe, foi “apontador de trabalhadores”( por  ocasião da construção da linha férrea), e manteve uma alfaiataria por muitos anos, sua ocupação maior, pois tive informações que era um dos melhores. Em 1955, ingressou na política, e  foi eleito vereador, apesar dos poucos recursos financeiros,  tendo ainda oito filhos para encaminhar na vida. Ele colocou como objetivo maior os estudos dos seus filhos e conseguiu esse fim. Como político seu trabalho foi reconhecido, tanto é, que o povo o reelegeu mais cinco vezes, vivendo na política pombalense por 29anos e 4meses( o vereador com mais tempo na Câmara Municipal de Pombal até os dias atuais, segundo Vicente Cassimiro que legislou com ele algumas vezes). Sua última legislatura, ocorreu de 1983 a 1988, já com a saúde precária.
Lelé não fazia campanha ostensiva, limitando-se a conversas nas ruas e visitas a casa dos seus eleitores amigos. Ele sequer fazia “santinhos” ou cartazes, pois a divulgação da sua imagem era feita pelos seus familiares e pelos que tinham por ele o respeito que se tem por um homem sério e pela própria história da família Benigno Cardoso.
 Foi ele o pombalense, que por mais tempo presídio a Sociedade Artística e Operária Beneficente de Pombal (S.A.O.B), mais conhecida como a SEDE Operária, a mais antiga sociedade beneficente do município, fundada no dia 8 de julho de 1934 pelo músico Francisco Ribeiro. No final dos anos de 1940, José Benigno – Seu Lelé assumiu a Presidência da Sociedade e permaneceu na mesma por 43 anos.
Na década de 1950, com verbas do governo federal, intermediadas por Dr. Janduhy Carneiro, José Benigno construiu os dois prédios da sua sede própria, e que serviram por muitos anos como instituição de ensino fundamental.  Ali funcionou o primeiro cinema da cidade, pelo saudoso Manoel de Sousa Bandeira,  também, muito utilizada para reuniões da classe operária, encontros para as noites de mágicas do professor Guimarães, festas sociais, local da realização dos grandes carnavais de antigamente, organizados por Adamastor Gouveia e Zezinho sapateiro(ambos in memória), e a  primeira biblioteca pública da cidade de Pombal, com livros de autores brasileiros e da literatura universal. Além do prédio da Sede, Lelé construiu um patrimônio físico para Sociedade Artística e Operária Beneficente, a exemplo:
     - Construção de unidades residenciais para seus associados;     
     - Construção de túmulo no Cemitério N.S. do Carmo para os associados;
     - Desenvolveu programas assistências que, até hoje, são inovadores, com o apoio à melhoria de renda dos associados, oferecendo cursos de capacitação e concessão de máquinas de costuras, em sistema de rodízio;e
        -Mantinha um serviço assistencial médico e odontológico permanente aos seus associados, bem como ajuda emergencial.
     Lelé  construi para moradia, a segundo casa residência na futura Rua Jerônimo Rosado(o construtor foi Agostinho dos Santos), em frente a primeira, que foi de José Leopoldo Urtiga. José Benigno foi um homem de procedimentos exemplares. Uma lembrança de integridade moral, honestidade e de grandes amizades. Era comum parar os filhos de seus amigos na rua, só para saber sobre a família ou com intuito de aconselhá-los, a pedido dos próprios pais desses adolescentes. Cumprimentava todos que encontrava pelo seu caminho, independente da classe social ou idade. Tinha um grande amor pela política, à cidade e ao povo pombalense.
Verneck mencionou que uma das muitas lembranças suas era a harmonia familiar, que ele proporcionava. Uma outra lembrança de Verneck se deu por motivo da chegada do rádio na cidade a partir dos anos 50, e expandido no começo dos anos 60. A respeito disso ele comentou: ‘’Nosso pai sintonizava na rádio Tupi do Rio de Janeiro, ouvindo as velhas canções,  ele  ficava a dançar com nossa mãe! Para motivar a leitura dos filhos, comprava a revista O Cruzeiro, Jornais e livros. Uma lembrança marcante da nossa infância era quando à tardinha ele fazia uma caminhada diária da Rua Jerônimo Rosado para Rua de Baixo, onde morava tia Mila. Juntos iam nosso irmão Ghandi montado em um carneiro chamado Belém, o que chamava muito atenção por onde passávamos. A chegada era fraterna e com cadeiras na calçada, onde ficava a conversar por horas com os familiares e amigos.  Meu pai repassou aos filhos, honestidade, dignidade e boas amizades’’.
      Lelé  foi o último líder dos Benignos e Cardosos,  responsável pela agregação da família  e que nos dias de hoje faz a devida falta, quando  em certos momentos da nossa vida se procura a sabedoria de líder, de um guardião  para um bom  conselho.  Certa vez, na “Outra banda” terra dos nossos avôs, ele pediu que eu plantasse um pé de manga, e disse: “em dez anos ela já vai botar os primeiros frutos”. Respondi que  era muito tempo e  que não valia a pena. Lelé me levou   até a parte alta do sitio  mostrou uma frondosa mangueira, ali existente e perguntou se eu sabia por que aquela mangueira era conhecida por todos da família como o “pé de manga de Lelé” . Respondi que meu pai havia dito era por que ele, Lelé, quem a plantou. Ele insistiu: “você já me viu colhendo manga ai?” Respondi que não, ai ele disse: quando eu plantei esta mangueira eu também pensei que ia morrer e não a via botar, mas sabia que alguém um dia ia colher aquelas mangas. Era o espírito socialista, de um homem que se doava para  atender  as necessidades dos outros.          
     Quando  menino eu me acostumei a ouvir minha avó, e depois meu pai e meus tios, se referirem ao patriarca e líder  “Pai D’ Airão”, e depois “Pai Benigno” que viveram no inicio e no final do século XIX respectivamente. Acredito que eles, meus tios,   não os tenham alcançados, mas  de tanto ouvi-los falar, fortaleceu em mim a imagem de homens rígidos que exerciam no seio famíliar as suas devidas autoridades, de forma que não se tomavam decisões sem antes ouvi-los.
    A Seu Lelé o nosso muito obrigado, que seu testemunho de vida, motive muitos pombalenses para o trabalho social. Quem dera que outros na nossa atualidade, pudessem intervir e fossem ouvidos e respeitados pelos menos ajuizados! Que o Deus da vida, te conceda a tua recompensa e também a tua paz.

 
Texto adaptado de Jerdivan Nóbrega de Araújo, por Paulo Sérgio. Blog Contandosaudade

terça-feira, 17 de abril de 2012

Inácio de Oliveira Nóbrega(Fogueteiro), 13 de setembro de 1901 a 15 de novembro de 1983

Natural de Brejo do Cruz – PB, era filho de Manoel Simão dos Santos, e dona  Maria Penha de Jesus, tendo por irmão, Severino (in memória), que gostava muito de pescar e caçar, este morava em Caicó.
Quando criança, o garoto Inácio, estudou pouco, provavelmente o colegial (antiga 5ª série), mas foi o suficiente para torná-lo membro da banda de música de sua cidade, e anos depois, ser incorporado ao quadro da policia Militar do Estado da Paraíba, aonde prestou relevantes serviços na cidade de Campina Grande, morando na Rua João Pessoa. Agora por motivos de um desentendimento, acabou quebrando um camaradinha, naquela cidade, e foi desligado da polícia. Foi quando decidiu vir morar em Pombal e continuar sua vida em companhia da nova família (Isso porquê Inácio Puçá, casou uma primeira vez com Manuella Maria da Conceição, em 28 de dezembro de 1921, na igreja matriz de Brejo do Cruz.), da primeira família tinha dois filhos: Francisco das Chagas(in memória), e Manoel, este mora para as bandas do Amazonas, porém  hoje, não se sabe ao certo sobre sua vida. Depois de romper seus votos, Inácio contraiu um novo casamento com Inez Guedes da Silva, que teve de fugir para poder casar, pois sua família não queria o romance, feito isto, casaram, e ela passou a assinar como (Guedes de Oliveira), por meio de casamento civil cujo registro n* 527, livro 08, pagina 252v, data esta união em 18 de fevereiro de 1933, no cartório da comarca de Areia, logrado na Rua Getúlio Vargas, 136. Inez era Carioca, filha de Manoel Guedes da Silva e Augusta Moreira Guedes (naturais de Areia, mas um irmão de Augusta, sua mãe, que era comandante da Polícia militar no Rio de Janeiro, deu um sítio  a irmã, para criar os filhos por lá e eles foram, ficando revezando sua estadia entre a Paraíba e o Rio de Janeiro. Desse novo enlace nasceram os filhos: João (in memória), além de Sebastião( hoje mora no Rio de Janeiro), José e Inácio(Didi), que moram em Pombal ainda.
            Inácio, quando chegou a Pombal, no início dos anos 40, morou na Rua Nova (Cel. João Carneiro), no antigo Bangalô de Sá Leite, onde funcionou a agencia bancário e hoje funciona o shopping SEBRAE; nesse período o velho bangalô(que soube foi erguido por Sá que estava noivo com Maricô, e como ela rompeu o noivado, o homem não mais terminou a casa abandonando a construção), era alugado a duas famílias, que dividiam os cômodos: Era seu Inácio Nóbrega e Chico de Maria Querosene(ainda viva).
Didi comentou que o primeiro empreendimento do seu velho e saudoso pai, foi uma padaria, na data existiam poucas casas comerciais, a padaria foi montada por um amigo chamado Sebastião Alves do Vale do Piancó, que morou muitos anos em Campina Grande, a ``Rainha da Borborema`; depois da padaria, seu Sá Cavalcanti (prefeito na Época), ofereceu, para ele o bar do Coreto, que acabara de ser construído, ficou com os dois simultaneamente; depois montou uma cantina, mas isso até 1947.

Seu Inácio era um verdadeiro mestre na confecção de fogos de artifícios, pois aprendera desde muito jovem, com a família de dona Inez, que era toda de fogueteiros em Areia. Por aqui, logo adquiriu freguesia, no entanto, não era esta, a sua única atividade, uma vez que o velho Inácio Nóbrega, também confeccionava caixões, e abriu uma casa funerária, que segundo o filho José, era referência na micro-região de Pombal ( que compreendia Malta, Lagoa, Jericó, Paulista, e demais localidades), o estilo das urnas funerárias eram rústicos, para o ato final da vida de um ser, mas como antigamente, enterrávamos nossos entes a sete palmos, ou em cova rasa, com uma tanga de rede apenas, esta novidade tornava-se  artigo de luxo!  O caixão era uma modernidade , mas para quem não sabe, ou não recorda, era uma armação, um fino esqueleto de madeira; no fundo uma tabua estreita, com 3 ou 4 cm de espessura, com um formato de cruz, para dar sustentação, tanto a estrutura, como um todo, quanto  aos membros do corpo sem vida, e o acabamento era sempre feito com um tecido de morim preto, muito leve. Eu me recordo, que os calcanhares desciam um pouco pressionando o tecido, na altura dos pés.
Assis de dona Bulita, uma vez comentou para Pedrinho e eu, dizendo que quando o seu avô João Clemente de Sousa partiu, então Acidália (in memória),  sua tia, mandou que ele e Chagas, seu irmão, fossem comprar um caixão lá em seu Inácio, eles foram e com a vergonha maior do mundo trouxeram aquele caixão na cabeça. Assis disse assim: -‘’ Quando agente chegou lá em casa , e destamparam o caixão estava o nome bem grande PITÚ  no fundo, aonde ficaria as costas! Quando tia Acidália viu, disse: - Pitu? Papai vai ser enterrado com o nome pitu nas costas? Vai não! Ô Assis e Chagas, volte lá em seu Inácio e diga que mande outra urna, porque meu pai não vai ser sepultado nesse aí não! Nós fomos, mais com a mesma vergonha, desfilando com aquele caixão preto na cabeça!’’
José lembrou: - ‘’Ele começou a fabricar caixões no mesmo período que Pedro Corisco, agora foi depois um pouco em 1947. Sua primeira venda foi em casa (no antigo Bangalô), e construiu até um barraco para vender os fogos, mas quando  Seu Sá Leite vendeu a casa para construir a agência bancária, ele então montou seu comércio onde foi o deposito de Pedro Celestino Dantas(Pedrão, in memória), teve também outra casa funerária defronte a Nery, uma na Rua do Rosário, e por ultimo, foi na Cel. José Fernandes, vizinho a Zé Nogueira.’’ E continuou comentando: -‘’ Papai era uma pessoa boa, mas tinha um grande problema com o álcool, bebia demais! Bebia tanto que adoeceu, então passou vinte e dois dias em João Pessoa, si tratando, e quando voltou, veio gordo, bem tratado e bonito! Só que não deu muito tempo, ele logo caiu na cachaça, e dessa vez não durou muito, ele ficou bem magrinho, pois fazia muita extravagância!’’ Quando adoeceu novamente, mandou chamar o filho José, que na data encontrava-se em Irecê na Bahia, e junto com o irmão João e a esposa Daguia de Zé Pequeno, cuidaram do casal, e o fizeram até o fim. Depois da partida de Inácio, José foi embora para Natal, e com um tempinho foi a vez de sua mãe, mas só obteve notícias, tempos depois``.
Zé Nogueira disse: -‘’Seu Inácio tinha o prédio aí de fronte ao açougue publico o prédio muito velho, as telhas todas quebradas. Então certa vez choveu bastante, e toda vez que chovia, molhava os caixões devido às goteiras, e nisso passa Manoel doido (Manoel foi outra figura perturbada, que andou por nossas ruas descalçadas, mas como se fosse um grande inimigo, foi morto por enforcamento dentro do rio, por trás do grande hotel, e até hoje não se sabe o executor do feito maléfico), quando viu os caixões na calçada gritou: - Seu Inácio, leve estes caixões para feira que o senhor vende tudinho! E o povo só fazia achar graça. ‘’
Inácio Nóbrega, era fã de um carnaval, gostava de brincar na sede operária, comprava sempre duas fantasias, uma para ele, e a outra era para João, seu filho. No mais era requisitado pelos amigos ricos Juca Arruda, Dr. Lourival e Zé Arruda, para enfrentarem uma caçada, ou ainda uma boa pescaria, que nunca recusava o convite.
No ano de 1966, seu filho José sofreu um balaço, vindo de um policial, que alegou ter disparado por engano, e este engano, quase o ceifou! O Pai aflito fez um voto a São José, que intercedesse a Deus pelo seu filho, e se de fato ficasse curado, construiria uma capela, e faria as novenas em honra do seu santo padroeiro enquanto vida tivesse, o rapaz então ficou curado! Para cumprir com o prometido, ergueu o pequeno templo, e todos os anos realizava o tríduo e a festa social, estas aconteciam na Rua do Rosário, e de lá saíam às procissões com grande aglomeração de fieis, para a pequena capela, onde aconteciam as celebrações das missas. A capela existe ainda hoje, esta precisando de alguns reparos, nas paredes e no teto. A nora Daguia,  tomou conta das festividads algum tempo, com a mesma pompa e festejos, e hoje através de José.
Didi comentou: -‘’Há muitos anos papai morou com a família em Caicó, ele tinha apenas um irmão, e se chamava Severino, ele havia sofrido um acidente que o deixou  todo atrofiado. Papai foi morar lá para cuidar de meu tio, e mandou fazer um carro de mão para transportar Severino, uma vez que não existiam cadeiras de rodas, e o filho mais moço era quem levava o pai. Eu sei que papai tinha um acordo com meu tio: ele ia bancar tudo para sua família, e ele em contra partida não pediria nada para ninguém! Quando foi um dia papai flagrou Tio, pedindo dinheiro para o Tenente Celso(Prefeito de Caicó), ficou com muito desgosto, porque o irmão não tinha necessidade de pedir nada, pois ele dava de tudo, e até chorou! Nisso ele fez uma promessa para São Sebastião para que rogasse a Deus, e que se o irmão dele ficasse em condições de pelo menos comer com suas próprias mãos, mandaria fazer uma capela, em sua homenagem; com uma semana tio Severino estava comendo com suas mãos, aí papai começou a cavar o alicerce, e quando acabou de erguer o templo, no ponto mais alto de Caicó, meu tio estava de pé, ele foi agraciado! Meu tio partiu anos depois, pois sofria do coração e estava pintando uma casa, quando enfartou e caiu de cima da escada.’’ Didi comentou ainda que o seu pai tinha muita confiança em Deus, e tudo quanto pedia recebia, mas nunca cuidou de sair de pequenos vícios, como beber, ou jocar, que arruinaram suas finanças.
Chico de Ozório comentou que em determinado momento de sua vida convidou Inácio Nóbrega, para ir caçar no Maranhão, pois tinha um cunhado seu que era do fisco, e saia uma turma grande para lá, mas quando chegavam e começavam os preparativos para a caçada, seu cunhado e Inácio, faltavam ir as vias de fato, por causa da paixão pela política, que os possuía. E por falar em paixão política, Inácio Oliveira da Nóbrega, era UBD(União Democrática Brasileira), roxo, partido dos Carneiros. Na campanha que saiu Elry Medeiros, candidato, seu Inácio mandou fazer um grande pavilhão entre a coluna da hora, e o centenário, mandou cobriu com palhas secas de coqueiro, e quando na hora do comício, todos naquela festividade, ele então pegou na vareta do foguetão, pôs fogo, e o solto, aí a taboca subiu, mas veio explodir quase sobre a palhoça, que por estar seca, pegou fogo rapidamente, e todos que estavam debaixo correram das chamas, no fim acabou o comício antes do tempo. Ele mandou enfeitar todo o centro da Cida de Pombal de bandeiras pretas, quando da partida eterna de Getúlio Vargas, como comentou Inácio Filho, ele de fato era partidarista fanático.
A Inácio Fogueteiro, o nosso muito obrigado, por fazer útil a nosso povo, as suas idéias, servindo a toda população que festejava (com os fogos), ou que sofria em polvorosa nos seus momentos de dificuldade sentimental, e até social. Pelo seu lado religioso, e humano, auxiliando aos mais carentes, quando dividia os pagamentos para os mais pobres, esperando o soldo do mês seguinte. Que Deus te conceda, a recompensa  que te for devida, e te conceda a paz.
                                                                     Texto Paulo Sérgio. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Jaime Monteiro da Silva, 10 de setembro de 1938 a 03 de fevereiro de 1977

Natural da cidade de Pombal, Jaime era filho de Sebastião Monteiro da Silva e dona Geracina Monteiro (Cindra), segundo Marcos Tavares, o Marquês do cartório de registros civis, seu Sebastião era padeiro nesta cidade. Por irmãos, Jaime tinha Monteiro (in memória, vitima do álcool), Idelvita e Graça (também in memória), além de Mariquinha, que vive para os lados de Campina Grande-PB.
Estudou o primário, pelas casas dos vizinhos e amigos que alfabetizavam os meninos antigamente, sendo dono de uma bela caligrafia, e utilizava dela para expressar uma de suas artes, o grafite, que por profissão, abria letreiros na antiga Lojas Paulista, e posteriormente Casas Pernambucanas (cujo o capital era do exterior), administrada por ultimo pelo gerente Ari Aleijado. Além dos letreiros, desenhava a promoção do dia apontando as mercadorias, que estavam no expositivo, sempre envoltas de um morim estampado. Abria ainda os letreiros nas campanhas eleitorais e era bastante requisitado para pintar nas redondezas, como Paulista e Malta, que na data eram reduto político de Pombal, além de muitas outras da região.


Em 1956 dotado de muita inteligência e esforçado, descobria Jaime Monteiro a partir dos ensinamentos de Zequinha, um morador da vizinha cidade de Sousa-PB (este era pai de Ceição, uma mulher da vida que fez história por Pombal), que dando a ele os seus primeiros acordes, abriu uma janela para transformá-lo em um dos maiores sanfoneiros destes arredores, com uma sanfona de 120 baixos nas mãos. Existem pessoas que possuem um dom e o deixam oculto por não saberem aproveitar aquilo que receberam, mas Jaime soube aproveitar. Seu dom era fabulosamente belo, e bem apresentado, uma vez que o fazia para as diversas pessoas, ou em outras palavras para aquela parcela masculina da nata pombalense, que frequentavam os bordéis.
Jaime tocava com perfeição sua sanfona, que tinha estampado o seu nome: Jaime Monteiro. No ano de 1958 aproximadamente, ele já tocava nos cabarés desta cidade, e por ser noivo de Creusa Ferreira, filha do velho Love (Virgílio, que era um antigo proprietário de uma casa de diversão masculina ,O Brega, como ela intitula a casa. Também dono de um salão de jogos tudo isso nas horas de folga, pois era agricultor durante o dia). Contou-me Genival Severo, que o velho proprietário abria uma janelinha, a única ligação com o salão de festas, e depois quando o salão estava cheio, lá vinha ele cobrar a cota para tirar suas custas do contrato já pago com antecedência ao sanfoneiro. Assim, começava a ganhar fama, pelas festas que tocava para o sogro.  Com ele, seguia o mine fã clube do Jaime Monteiro, alguns aprendizes e dentre eles o seu mais brilhante aluno, o famoso Geraldo Bernardino que o acompanhava para onde quer que fosse, pois segundo o próprio Geraldo, ele dava espaço para os que desejavam tocar, e dessa maneira despertava o gosto pelo seu instrumento musical, a Sanfona.
Genival Severo que é uma figura bem conhecida nesta cidade, teve um particular com o maior sanfoneiro dos tempos atuais nesta região, Geraldo Bernardino, e ouviu da boca do músico: -`` Havia um grande e habilidoso tocador chamado Jaime Monteiro ``, e completando  falou: -`` Como tocava nos bordeis, foi deixado de lado e sua fama encoberta pela sociedade, pois ninguém queria ter em sua festa particular um homem exclusivo da zona de baixa meretriz, uma pena! Perdeu Pombal - PB, um grande e talentoso artista e perdeu de fazê-lo conhecido na integra e apresentá-lo aos Estados vizinhos e nos centros desta cidade!`` No centro eu concordo, pois as senhoras e alguns homens não si davam a este luxo. Agora os freqüentadores das casas de diversão, boa parte era do centro e dos arredores, e obvio que o eram de carteirinha. Eles sabiam da sua relação com este belíssimo instrumento musical, mas a modéstia e a velha moral os impedia de o revelar!
Geraldo Bernardino em outra oportunidade disse em entrevista na sua residência: -`` Rapaz, Jaime foi o ídolo da música de minha adolescência, eu tinha uns 14 anos e via-o tocar nos cabarés de Pombal - PB, achava tudo bonito, daí me aproximei pela sanfona! Quando fiz o pedido ele começou a tocar para eu ir aprendendo. Olhe era ele, um do Sítio Catolezinho chamado Genival e também Dedé de Carintoso, esses camaradas depois abandonaram tudinho. Depois disso ele me levava para tocar em Catolé com ele, agora lá eles respeitavam a gente, sabia onde agente tocava, e agente tocava no ambientes e tudo mais.  Anos depois eu comecei a fazer festas sozinho e andei por Catolé – PB novamente, e era requisitado por todo mundo inclusive mulheres casadas que estavam com seus maridos  nas festas comuns, chegavam e pediam música também, sem nenhuma dificuldade, agora aqui era tudo mais diferente!``
Em 19 de novembro de 1958, o Padre Andrade, na Matriz de Pombal - PB assistia os votos de amor e fidelidade entre Jaime Monteiro e Creusa Ferreira (ela morava no orfanato de responsabilidade de Antonieta Pereira, e saiu para poder casar), teve três filhos, um casal de gêmeos, que nasceu sem vida e o ultimo chamado Jaime, mas não sobreviveu também. Nesse período, Creusa, disse ter passado por uma depressão pós-parto, e não chegou a conhecer o seu filho, pois fora retirada para a Capital do Estado, até ficar recuperada.
Em 1961, boatos deram conta de uma suposta traição mútua do casal, e sobre o marido pesava ter tido um chamego com Maria Anália (Mulher da vida e a mais valente que já apareceu nessa região, pois desafiava homem e mulher era muito destemida), que na época trabalhava com o velho Love. Acontece que devido aos boatos destas supostas traições, Creusa e Jaime se apartaram e nunca mais reataram a união, ela não quis mais saber de casamento, e teve ela ao longo de sua vitalidade feminina 22 filhos para ser mais preciso, frutos de romances pouco duradouros ou apenas uniões casuais, como expressou.
 Depois de apartado, Jaime Monteiro por desgosto em decorrência dos acontecimentos vividos, passou a beber mais ainda, jogando a sua vida diretamente para os cabarés. Então decidiu fazer vida com a mundana Maria Anália, e com ela teve 05 filhos, restando apenas Socorro, que ao que tudo consta, havia tirado os traços da formosura da sua mãe Maria.
Os amigos lembram que Jaime tinha os peitos todo cortado por gilete , pois Segundo José Deodato(o Magro do Jogo), as meretrizes, sempre andavam com este pequeno instrumento de corte, debaixo da língua, para defesa pessoal, ou para o caso de algum esperto não quisesse pagar pelos serviços prestados. Os doze primeiros cortes, todos superficiais, mas o golpe deferido pela própria Anália, o 13a corte, foi mais complicado, e após o acontecido Maria Anália buscou refúgio na casa de Chico Pereira, temendo ser presa, pois gozava de boa amizade com a família, no entanto, ninguém apresentou queixa. Obtive registros de uma passagem de Jaime, músico no Hospital e Maternidade Sinhá Carneiro por apendicite aguda, cirurgia realizada pelo Dr. Avelino Elias em 03 de Janeiro de 1962.
Socorro sua filha contou-me que quando estava embriagado, Jaime sumia de Pombal de trem, desabava para a cidade de Sousa-PB, onde ia ter com outra mundana por nome de Ivete, residente naquela cidade, e quando regressava aí o pau quebrava, mas depois faziam as pazes e nunca si apartaram muito tempo.
Era um bom pai, pois Antônio Queiroga relatou-me que presenciou uma cena de Jaime Monteiro e nunca esqueceu, ele estava para tocar na vaquejada, e havia comprado uma bicicleta Monareta para Socorro sua filha, e antes de colocar a menina para andar, teve todo o cuidado de enfeitá-la com algumas fitinhas. Socorro era muito fofinha, e seu pai a ensinava a andar antes da sua apresentação, no Parque de vaquejada.
Jaime Monteiro estava ensaiando junto com os congos para se apresentarem na rua (como diversão eles fazia tais promoções no coreto a noite ou mesmo pelas ruas da cidade, só para sair do marasmo), no certo mesmo era vê-los na Festa de Nossa Senhora do Rosário. Agora durante o seu ensaio ele enfartou e declinou sua cabeça sobre a sanfona, o instrumento que o acompanhou, e tanta alegria deu as pessoas desses arredores. O fato se deu na casa onde morava Cristovão Rocha, na Rua Herculano José de Sousa, Bairro dos Pereiros. Partiu muito novo ainda, e ao lado de Maria Anália sua segunda companheira, e seu segundo amor.
A Jaime Monteiro o meu muito obrigado, sua contribuição a esta cidade de Pombal foi muito proveitosa, sua fama e sua habilidade com o instrumento sonoro, a sanfona, alegrou a muitos, quer tenha sido no profano(cabarés e festas diversas), quer tenha sido no sacro ( na igreja e capelas, que a todos acolhe), deixando muitas recordações alegres aos que te ouviram tocar. Que o Deus da vida e misericórdia, te conceda a tua recompensa e também a tua paz.
                                                                                
                                                                 Texto Paulo Sérgio

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Maria Anália de Andrade, 18 de junho de 1932 a 11 de fevereiro de 1990

Maria Anália era natural de Pombal, terra de Maringá. Filha legítima de José Luiz de Andrade e dona Anália Maria da Conceição, era neta dos senhores Bernardo Luís de Andrade e Leocádia Ana da Conceição, paternos, além de Manoel Lucas da Costa e dona Petronila Maria da Conceição, todos humildes e honrados. Seu registro foi assentado pela lei federal número 252 de 22 de setembro de 1936, no livro A55 folhas 148, número 4113, no cartório de pessoas naturais, Guiomar Tavares Formiga desta cidade, feito pelo escrivão Bernardino Ferreira de Sousa, no dia 28 de novembro de 1936 (embora tenha localizado o assentamento do nascimento de Maria Anália, nada constou no cartório desta cidade sobre sua data final, mas foi fornecida por Lucidalva, uma moradora do Bairro dos Pereiros, que lembrou o nascimento de sua filha caçula, no mesmo ano, e meses posteriores deste acontecimento). Seus pais além de Maria tinham a mais velha Hermínia, e o segundo José Luiz (Téo, nascido em 1925), ambos estudaram o primário completo. Contaram-me as filhas que ela possuía uma caligrafia muito bonita.
Em meados de 1937 perderam o patriarca da família, seu José (que exercia função importante para esta cidade, quando em tempos difíceis onde não havia água encanada, ele abastecia as casas no Bairro dos Pereiros, num jumentinho para dar o sustento digno a sua pequena família. Mas foi vitimado por um enfarto e partiu. A casa na Rua da Estação, 02, passou para responsabilidade do seu filho homem Téo, que assumiu os trabalhos do pai aos onze anos, abastecia as casas a 1C$000(um Cruzado), cada carga dàgua contendo quatro latas. Contou-me Téo, que era bem pequeno de modo que as donas de casa o ajudavam na retirada das latas pesadas (era ele na Rua do Guindaste, da mesma maneira que seu Toinho da bodega no centro da cidade), e que era fiado, apenas aos sábados Hermínia e Maria Anália passavam para receber o soldo do trabalho e juntas com a mãe desciam para fazer as compras dos legumes da semana, pois eram tempos dificultosos para o pobre, só comia quem trabalhava mesmo (Na atualidade esta tudo mudado, muitas facilidades, nada mais justo, são direitos adquiridos. A coisa mudou para melhor em alguns pontos, mas aos poucos vai convertendo-se ao passado, pois o povo permanece calado ante os governantes, sendo assim, voltaremos aos tempos difíceis, onde um idoso tinha de trabalhar até o seu ultimo dia sobre a terra, sem direito a um  descanso),  bom, depois de um tempo Hermínia (hoje reside na cidade de Sousa), casou-se e saiu de casa para formar o seu próprio lar, ficando apenas os dois irmãos mais moços em companhia de dona Anália.
No fim do ano de 1948, Maria Anália, tornou-se moça, uma donzela formosa, atraíndo os olhares dos jovens de sua época por ser bela, senão ‘’a mais bela’’, da Rua do Guindaste. Havia iniciado um namoro com o jovem Adauto Pereira (filho do saudoso Chico Pereira, e que veio a ser deputado federal por várias legislaturas, ambos in memória), tinha sonhos, e planos que eram comuns aos das jovens do seu tempo, talvez casar e ter uma família.  De compromisso firmado, o jovem ia rapidamente desenvolvendo sua riqueza, dia-a-dia. No meio deste afloramento de sonhos, os desejos e desejos, além do interesse próprio, nasceu uma vitima da inocência, Maria Anália (muitas num passado distante ou próximo, passado caíram nesta teia na busca incessante pela felicidade), acontece que por amor a jovem confiou, e se entregou para ele!  Entregando o seu corpo sem perceber, com ele entregou também a sua alma, assumindo por si as reviravoltas imposta pela sociedade, moralista e egocêntrica, que ainda demonstra seus traços na atualidade, mas hoje não consegue se compor por completo. Tornou-se motivo de vergonha ao ser denunciada, pois toda a família a enojou (até a década de 90 era motivo de tristeza, quando uma donzela si entregava antes do matrimônio, podia colocar em jogo o nome até mesmo da primeira que estava casada, no caso em questão), a revolta seria menor se o compromissado e supostamente apaixonado noivo, não tivesse voltado atrás e lhe dado as costas naquele momento, por ser ela de família humilde! Maria Anália, daquele dia em diante estava sozinha no mundo e que outra maneira senão vender seu corpo e fazer a alegria dos carniceiros de plantão. Começou trabalhando com Love, em sua casa de orgias, mas em 1961 depois de um chamego com o genro do velho Love, o fabuloso sanfoneiro, Jaime Monteiro, decidiram fazer vida, e intrigada com Love, abriu sua própria casa de mulheres, um pouco menor que a do antigo patrão, mas agora era quem mandava no pedaço, vendendo suas bebidas.
Comentários de Genival Severo, Magro do Cassino e Picaretti( este viveu com Maria Anália por mais de sete anos, antes de Jaime), dão conta que a beleza e o contorno de suas curvas eram de causar inveja nas demais mulheres da Rua da Rodagem/ Rua do Roí, mas o que a vida lhe atribuiu em beleza, lhe concebeu em valentia, pois batia no peito e gritava, que não tinha medo de nenhuma mulher daquelas, e o fazia olhando na cara! Sua fama a perseguiu e até hoje é assim  que é conhecida. Love era conhecido por sua valentia, e sua filha aproveitava a carona no pai e birrava alto, mas com Maria Anália por perto, tudo desandava ( acredito que a vida a ensinou, de uma maneira errada, a nunca ser pisada novamente), era osso duro de roer!
Ela segundo o que nos retrataram as filhas Socorro e Lucia, era alta mais ou menos 1,70metros, contornados ombros e da cintura ao tornozelo. Tinha uma cabeleira longa(era moda na época e poucas podiam fazer), uma pele morena clara e sedosa. Para chamar mais a atenção usava peruca imitando as concubinas no período da monarquia, e para encerar usava sempre, roupa muito bem costurada de cambaia de linho, despertando a inveja nas demais raparigas daquele setor.
Picaretti lembrou-me: -‘’Uma vez eu estava num quarto com uma dona, ela soube, e foi bater lá onde eu estava. Quando lá chegou, botou a porta abaixo, foi o maior tirinete comigo e com a dona que foi embora de Pombal-PB!’’
Apesar da sua vida desordenada, tinha sentimentos como qualquer ser humano tem. Era boa mãe, e excelente avó! Teve de dois relacionamentos duradouros 10 filhos ao todo, todos em casa mesmo (no Cabaré), mas 04(quatro), partiram por causa da difteria e 04(quatro),  por dor de dente ( nascendo os dentes é comum febres e outras coisinhas mais, que podem prejudicar a saúde do bebê), escaparam Socorro, a quem sempre colocava para  ser a boneca nas festas de São Pedro Apóstolo em sua Matriz, pois era muito bonita, um retrato fiel na formosura da mãe, além de desfiles de beleza no Pombal Ideal Club, esta era filha de Jaime, além de Lucia casada com Deda no Conjunto Janduhy Carneiro. Enquanto mãe zelosa, uma de suas filhas revelou que ela  sempre cantava sua música predileta, uma composição de Adilson Ramos, Relógio, uma canção de ninar para elas dormirem. A letra é assim:

‘’Porque não paras relógio
Não me faças padecer
Ela irá para sempre,
 Breve o sol vai nascer.
Não vês só tenho esta noite
 Para viver nosso amor
Teu badalar me recorda
 Que sentirei tanta dor

Detém as horas relógio,
 Pois minha vida se apaga
Ela é a luz que ilumina meu ser,
 Sem seu amor não sou nada.
Detém o tempo eu te peço,
Faz esta noite perpétua
Pra que meu bem não se afaste de mim
Para que não amanheça’’

Maria era devota de Nossa Senhora de Fátima, e do Sagrado Coração de Jesus, por este motivo ajudava aos Padres Andrade e Levi, cuidando do jardim daquela então capela, hoje bela Igreja Matriz de São Pedro Apóstolo.
Por ocasião das missões de Frei Damião de Bozzano, Maria Anália procurou o santo Homem para abrir sua vida e contar o desgosto que deu a sua família (irmãos Téo, que ajudou a criar eles, e Hermínia, além de sua Mãe Anália, que estava hospitalizada em Sousa-PB, para morrer e não a perdoava), pois todos estavam intrigados por causa da vida que hoje levava. Ele olhou para ela e disse: -‘’Tem nada não filha, o pecado não é seu! Porque a filha errou e quer procurar a mãe, e Deus está vendo, a mãe não quer aceitar a filha, vá em paz.!’’ Dona Anália, partiu para outra vida e não aceitou ver a filha e nunca pôs a benção nos netos.
Devido às noites em claro nas festas, e extravagâncias na sua juventude, Maria Anália, adquiriu diabetes e ouras males, que por fim de seus dias a deixou cega, magra e bem pouquinha, nem de longe, o retrato da mulher formosa e cobiçada dos tempos de outrora (pois é como esta em Provérbios 31,30, ‘’a beleza é vã e a formosura é passageira; mas a mulher que teme ao Senhor será elogiada’’), Vítima do diabetes, partiu, mas deixou amparada as suas duas filhas, cada qual com seu casebre.
No tempo de Maria Anália, tocavam Biino. Love, Jaime Monteiro, Elias, Aneemias e Tomaz.  Suas comuns era Maria do Menino (que preparava remédio para abortar, não para todo mundo, pois era preciso ter muita amizade para fazer tal veneno. O que sei é que morreu e nunca repassou a receita eficaz para tal barbaridade), Beatriz, Tiquinha, Lousa(in memória), e vivas dona Cotinha e Cosma.
A Maria Anália, o meu pedido de perdão, pois participo da mesma sociedade hipócrita que prega a igualdade e humildade, o direito ao erro, o perdão, o recomeço para os homens errantes, mas muito embarga o agir errado do próximo, como aconteceu a você! Obrigado pelos favores prestados a esta cidade e a seu povo, mesmo como uma desvalida meretriz, que escarnada era, as claras, e desejada no intimo, fizestes as alegrias de uma classe. Que Deus te conceda o que de fato ti for propício, como recompensa e também a sua paz.
Texto, Paulo Sérgio