terça-feira, 28 de agosto de 2012

Francisco Dantas de Morais (Chico de Ernesto), 23 de junho de 1923 a 27 de outubro de 1980



              O popular Chico de Ernesto, era natural de Pombal-PB nasceu e morou na rua da Cruz, por muitos anos, mas terminou os seus dias na Rua Professor Luís Ferreira Campos(num setor apelidado de Cacete Armado). Seus pais chamavam-se Ernesto José de Souto e dona Rosélia Dantas de Morais(Rosa de Ernesto), e teve por irmãos Cabo Luís, Raimundo Nonato, Cícera, Maria e Lourdes(In memória), além de Maria Aparecida, Aristides(Cachorra Velha, o goleirão), e Damião. Estudou muito pouco (pois nas eras passadas o comum entre os comuns era alfabetizar apenas para escrever o nome, mas o certo mesmo era tirar os documentos para poder votar e depois a lida da roça), as condições financeiras, para se deslocar para fora do estado e estudar eram poucas.
Chico de Ernesto, tinha como profissão oficial pedreiro, mas também foi pintor. Era ele quem sempre pintava a Igreja Matriz de Pombal, era o único a subir nas Tôrres daquele templo religioso. Soube, que o seu pai era especialista só em construção de torres de igreja, com ele,  Chico sempre ajudando. Após abandonar a família, seu pai foi morar em Malta, mas antes de partir desta vida foi abandonado pela outra mulher e tornou a Pombal, onde ficou por casa de Aristides(Hoje, segue o seu feito nas pinturas, Ernesto o seu sobrinho). Chico de Ernesto foi também, após ser nomeado, juiz de menores, e sempre supervisionava os moleques em suas brincadeiras, não os deixando jogar bola na rua, jogar bila, brincar de triângulo, soltar pião nos terreiros ou vias públicas, entre outras brincadeiras que julgasse perigosa para os transeuntes. Por esta função abraçada arduamente, gerou desafetos entre os moleques abastardos e seus ricos pais insatisfeitos, que nunca conseguiam argumentos para convencer que o juiz nomeado em exercício (hoje é uma espécie de conselheiro tutelar), estivesse errado, pois sua razão prevalecia sempre! Provavelmente haveria a discussão e ele seria com certeza o vencedor, daí o linguajar popular nas ruas, nas esquinas ou lares de Pombal: - “Agora pronto! Diga aí razão de Chico de Ernesto!” Este termo é bem comum em nossa região. Não bastasse a nomeação do juizado de menores, Chico também sentou praça por duas vezes (simplesmente, policial militar), quanto as datas e o tempo de duração não obtive informações exatas, mas saía do destacamento e pouco tempo depois era chamado novamente para por ordem no lugar.
Segundo Beto Bandeira, que ouvia a conversa dos adultos de longe (porque as criança jamais interferiam em conversa dos pais, jamais!), era conhecido também, como sendo ele o caçador de lobisomens da cidade, pois era “forte e disposto”! Bem na verdade, o mito trazia por trás, personalidades da sociedade, de moral nada duvidosa, e em função das fraquezas do corpo disfarçavam-se de preto e vagavam na calada da noite para encontros amorosos ou para afanar galinhas nos chiqueiros alheios, daí com todo aquele terror espalhado, o medo era presente nos populares, que não desejavam vagar por suas ruas depois de certas horas!). Pois bem, era o Chico de Ernesto, quem conseguia tal proeza, de aquietar os “assombros” do povo!
Ivo Geraldo disse : -“Eu era pequeno e estava com um grupo de amigos, então eles começaram a gritar para Chico assim: - Tá de boa em Chico de Ernesto! Eita, Chico de Ernesto tá de Boa! Chico não disse nada, pois estavam presentes neste momento Jandhuy, Ruy e Dalva Carneiro que conversavam na esquina da casa de Claudia Fontes(ambos in memória), próximo a Igreja Matriz, e quando eles saíram, Chico então se aproximou e disse para mim: - Primo, saia daqui! Vá embora para casa agora! Chegou junto dos moleques e perguntou: - Quem ta de boa o que? “ E Ivo continuou: - “ Agora eu acho que ele não bateu neles, porque viu que  os meninos eram de família rica, mas do contrário, o pau tinha corrido”.
Francisco Dantas casou-se sob as bênçãos da virgem do Bom Sucesso na presença do saudoso Padre Acácio Cartaxo Rolim, que assistiu aos juramentos com Maria Cristina da Conceição( filha de Venácio Fernandes de Sousa e dona Cristina Lourenço da Conceição), em 16 de setembro de 1944, na igreja matriz. Desta união tiveram apenas um filho, João Bosco(in memória nos anos 50). Em 16 de fevereiro de 1950, Chico enviuvou, casando  após a partida de sua primeira esposa com Rita Pereira da Silva com 22 anos,  no dia 10 de setembro de 1950, sendo assistidos pelo Pe Vicente Freitas. Seus padrinhos foram Ozório Queiroga de Assis e Epitácio Vieira de Queiroga. Com Rita foram 11 filhos: Damião, Dalvinha, Socorrinha, Valmir (Carú do Constituinte), João Bosco (Negro Gato, um dos maiores goleiros pombalense), José (Zé Ventinha), Negro Tina, bem como Geraldo (in memória), Antônio Gilmar, Francisco Junior (in memória), e Maria(in memória).
Chico de Ernesto era muito disciplinador, gostava de manter na linha a esposa, bem como aos seus filhos, que eram bem empestados, como me contou Negro Gato. Foi não foi, a chinela corria! Já a irmã de Chico, Cida, acrescentou: -“Cansei de ver a corda alisando o côro dos negrinhos no meio da rua, ou dentro de casa mesmo, pois eles eram danados por demais! Por muitas vezes eu trancava eles dentro de um quarto de lata e passavam era dias! Olhe eles eram umas pestes, não tinha quem aguentasse não.”
Negro Tina comentou relembrando,  que João Maria, filho de Cabine, chegou para um vendedor de livros de cordel e perguntou : -“ Aqui tem as aventuras de Chico de Ernesto? O cordelista respondeu: -Tem não senhor, mas quando eu vier novamente eu trago!”
Genival Severo mencionou um processo representado pelo Dr. Nelson Nóbrega contra Chico de Ernesto, aos 22 de abril do ano de 1960, por desordem no estabelecimento de Maria Anália(a quenga mais valente desta cidade. E agente pode até imaginar o desfecho da história entre estas duas figuras), e tudo começou quando Chico cheio de aguardente, quebrou as portas da casa de Maria Anália, aí foi o maior quebra pau , e que findou neste processo.
             Elias Queiroga, comentou que certo dia, Chico estava na propriedade de dona Neca, e quando esta ouviu disparos de arma de fogo perguntou para um rapaz de sua confiança, do qual não me recordo o nome agora, e nisso o jovem respondeu que se tratava de Chico de Ernesto, que estava caçando soinho na mata. Dona Neca mandou o jovem chamá-lo, e ele foi. Quando Chico se aproximou do batente da casa, então a mulher disse:-“ Quando for mais tarde você se lembre de passar lá por João Facundo e mandar ele te prender viu?” Ele deu as costas para ela e foi embora!
Um fato marcante deste nosso conterrâneo, e que é do conhecimento dos mais antigos e de seus herdeiros, teve inicio quando Chico de Ernesto foi convocado para prender um popular bastante afamado, por suas capiloçadas. Este popular era Dão de Canoeiro, que por suas cavilações e presepadas na juventude (brechando as mulheres no rio lavando roupa, ou mesmo pequenas coisas), já havia sido preso e transportado para a Capital do Estado, e conseguiu fugir de maneira ardilosa (seu feito foi extraordinário! Populares  na rua dão conta que na fuga, um outro colega ia sair com ele, mas na hora de iniciar o processo de fuga pelas tubulações de esgoto do presídio, pediu para sair na frente, e como era magro pode passar com facilidade, o companheiro  mais obeso topou, mas do outro lado, apenas Dão, conseguiu chegar. Saiu do esgoto nu, e teve de carregar um vestido  estendido em um varal próximo da sua saída, ganhando o mundo. Há um filme recente, chamado “Um sonho de liberdade “, que recorda-me muito este acontecimento há muitos anos passados só que próximo a nós!
Bom, tempos após sua  fuga retornou para Pombal, tornando a praticar seus deslizes (Em conversa com o Escritor pombalense Verneck Abrantes, soube de uma gravação com mais de duas horas de duração, onde Dão relata a sua vida para ele e Fatima Queiroga, na antiga casa de Belino Queiroga. Partes deste relato me foi confirmado por seu neto Tomaz,  dando conta inclusive, que seu avô vivera acompanhado de um grupo de cangaceiros, tendo deste tempo ainda algumas tatuagens gravados em sua pele, gravadas por membros daquele  grupo), para resolver a situação do terror das lavadeiras Chico de Ernesto foi convocado e incumbido de prendê-lo, e soube que já foi dizendo, -“Trago vivo ou morto!”
 Bem, deve ter dito brincando, mas quando se colocaram cara a cara (uma pessoa, que testemunhou o momento do confronto, pois estava passando próximo a linha férrea quando o procurado da justiça, estava descendo para beber água no rio Piancó, logo ali próximo a Casa Forte de Zezinho Caboclo, e soube ainda que nesse tempo o rio secava, não havia a represa), não demorou muito e o confronto foi deveras. Trocaram tiros e como os dois eram habilidosos com as armas, num pequeno vacilo de Dão, Chico de Ernesto o feriu no pé, o deixando aleijado. O Que sucedeu depois poderíamos até imaginar, Dão saiu do hospital e foi preso. No entanto, cadeia nunca segurou este nosso vilão, e mesmo aleijado, três anos depois foi o único, por talvez estar afastado de qualquer suspeita, que conseguiu fugir pelo teto da cadeia Velha de Pombal (feito único até aqueles dias e os atuais, uma vez que ela está desativada, funcionando a atual Casa da Cultura), no centro da cidade. Hoje Dão é um senhor de idade, está regenerado é doente e vive em um dos bairros de nossa cidade, mas não gosta de lembrar o assunto, fala apenas quando sente vontade.
Chico de Ernesto vitima de meningite partiu, mas deixou um legado de brincadeiras e piadas que vivem como citei anteriormente, na boca do povo.
A Chico de Ernesto, o meu muito obrigado, obrigado por todos os serviços prestados a esta população de Pombal - PB. Que o Deus da vida te conceda a tua recompensa e a tua paz.
Texto, Paulo Sérgio

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto e evidenciar mais uma figura popular da nossa terra.
    É bom lembrar que Chico de Ernesto, no seu tempo, foi o maior mergulhador de Pombal. Quando alguém se afogava no rio ou açude, era Chico de Ernesto que chamavam e mergulhava nas grandes profundidades para tirar a vítima. Chegava a passar mais de um minuto debaixo d`água.
    Um abraço,
    Verneck

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