quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Belarmino Fernandes de França, 26 de dezembro de 1894 a 20 de março de 1982

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Belarmino de França, poeta popular, nasceu na cidade de Pombal-PB, mais precisamente no sítio Várzea da Serra no antigo distrito de Paulista (o qual foi elevada a categoria de cidade em 1961. Era filho de Vicente Manoel de França e Maria Benvinda Fernandes.
Seu Belo, como também era conhecido, teve seu ensino fundamental em uma escola rudimentar, que freqüentou apenas quarenta e cinco dias, o suficiente para instigar sua grande sabedoria. Mas, o que verificamos, é que, aliado a sua privilegiada inteligência, sua verdadeira escola foi os caminhos dos sertões, a lida na fazenda Várzea da Serra, de cujo solo, água represada, a bonança dos invernos ou a vivenciando os causticantes anos de seca, entre os “elementos naturais da natureza”, ele retirava seus próprios frutos e a subsistência da sua grande família.
Contraiu núpcias no dia 22 de outubro de 1922, com Emerentina Dantas de Sousa, cujo enlace matrimonial nasceram os seguintes filhos: Federalino, Rita, Benigno, Almira, Alzira, Maria, Padre Solon, Raimundo (Doca) e Benedito Dantas de França. A exceção de padre Solon, todos os filhos viviam da agropecuária, em diferentes propriedades do município de Paulista-PB.
Quando idoso, dizia: “Já me considero velho para a lembrança dos moços. O mundo de vocês, não foi o meu. O meu, foi diferente, com cheiro gostoso do café torrado em casa, balidos de ovelhas, cururu cantando nas lagoas, romãs cor-de-rosa, e um alvorecer serenado, orvalhando flores. Meus amores foram muitos, para só ficar um... Às vezes, de olhos cerrados, medito a vida. E na cabeça dos serrotes, cumprimento as lagartixas... E piso o chão que me viu nascer, apanhando gafanhotos e borboletas amarelas. Amarelas e irisadas, grandes e pequenas. Como tudo fica longe, sinuosamente evocativo”.
O poeta faleceu na terra em que nasceu.
A verdade é que, entre a beleza da serra e a quietude da então povoação, vila e depois cidade de Paulista, viveu o poeta Belarmino de França, sempre alegre e de bem com a vida, improvisando versos e repentes que representava os gritos da sua alma, a memória do seu povo, o ardente amor à natureza, o cotidiano da vida sertaneja, tudo inspirado, cantado e decantado em versos e prosas, legado que ficará para sempre na memória dos amantes da poesia popular nordestina. Belarmino Fernandes de França, assim como Leandro Gomes de Barros, são filhos que orgulham as cidades de Pombal e Paulista, terras dos grandes poetas.
Entre a beleza da serra e a quietude da vila de Paulista, viveu ali o poeta, sempre alegre e bem, improvisando versos, que representam os gritos da sua alma em contato com a própria natureza.







QUANTO É GRANDE O PODER DA NATUREZA

Deus eterno divino e poderoso

Fez o céu, as estrelas, terra e mar

Fez o sol para tudo iluminar

Com seu brilho perene e majestoso

No espaço infinito grandioso

Aos corpos celestes deu clareza

Fez o homem composto de fraqueza

sujeito a morte, a culpa e ao engano’

Tanto é baixo o valor do ser humano

Quanto é grande o poder da natureza..



II



Jeová com sua própria mão

Juntou o limo da terra e amassou

Ë depois sobre ele bafejou

Deu-lhe vida, sentido e perfeição

E dizendo: levanta-te Adão

Este ali levantou-se com presteza

O qual vindo de Deus tanta grandeza

Foi prostrasse aos seus pés humildemente

Eis um pouco de barro feito gente

Pela mão do amor da natureza.



III



Ora, o homem trabalha e luta tanto,

Para fazer uma causa diminuta

Porém, nada fará só com a luta

Se não vir-lhe o precioso de alguém

Mas Deus Pai, com seu vasto poder santo

Como fonte Infinita de grandeza

Prá encher o Universo de beleza

Não precisa de nenhum material

Basta ali o seu mistério divinal

Prá provar quanto é grande a natureza..



IV


E se o homem fabricou o avião

Fez o barco com arte e aparato

O automóvel o rádio e o jato

Os raros X e a tal televisão,

Mas, não faz um caroço de feijão

Natural com a mesma realeza

Que plantado e chovendo com franqueza

Germina, enraíza, enfolha e cresce

Flora e novas sementes nos fornece

Quanto é grande o poder da natureza!














Impossível transcrever tudo. Aqui já se tem uma amostra do seu talento poético nunca inferior ao que o antecederam, através dos versos nos quais se denota até certo sentido filosófico.
Visitando em 1958, a cidade vizinha de Patos, depois de trinta e um anos que ali estivera, achando tudo transformado, Compôs o seguinte poema em sexti1has:





Patos, cidade imponente

Do sertão és a Princesa

Por teu majestoso porte



Revestido de beleza

Parece até que a teus pés

Vem curvar-se a natureza



A contempla-te a grandeza

Surge o sol no horizonte

E a lua branca e formosa

Nívea, casta, sem desconte

Com sua luz prateada;

Vem coroar tua fronte.



Te banhas na mesma fonte

Que emana da cordilheira

Onde rufava o pandeiro

Inácio da Catingueira

Com os acordes da lira

Do Romano do Teixeira..



A ti, cidade altaneira

Quis compor uma epopéia

Por teu gênio literário

Estilo clássico e idéia

És Atenas transportada

As terras da Filipéia.



De Salamina e Platéa

Regiões da Grécia antiga

Tu tens os mesmos costumes

Porém, tu és mais amiga

Aqui o burguês diverte-se

E o forasteiro se abriga.



Se a seca te castiga

Com seu calor causticante

Mas natural permite

Que tu sejas triunfante

E com os louros da vitória

Te tornes mais elegante.





Tu és cidade imponente

Desígnio de Jeová

Cada vez que penso em ti

Me
parece ouvir de lã

Os ecos de Josué

E a música de Pirauã.



O teu nome sempre está

Gravado em minha lembrança

Porém de mim para ti

Existe grande mudança

Meus dias vão de regresso

Porém, teu progresso avança...



Eu inda quase criança

Te vi na adolescência

Hoje, está na juventude

Onde fazes permanência.

Enquanto eu transponho os agros

Caminhos da existência.



Deus assume a Providência

Te fez privilegiada

Pois, uns trinta anos antes

Tu eras um quase nada

E num lapso de tempo

Quanto ficaste elevada



A leste tu és banhada

Pelo saudoso Espinharas

Que abastece os teus filhos

Com águas límpidas e cidras

E vai unir-se ao Piranhas

Na terra dos Potiguares.



As tuas produções raras

Também merecem menção

Produzes bem a batata,

Milho, jerimu, arroz e feijão

Mandioca e algodão.






Certa feita, um seu vizinho estava sendo prejudicado por uma raposa- que além, de devorar, algumas melancias, passou a come-lhe as galinhas. Depois de várias tentativas para exterminar o animal ferino, sem vantagem alguma, resolveu armar um laço, o que lhe deu ótimo resultado: o bicho amanheceu pendurado, no momento em que chega Belarmino e é solicitado para fazer uma gloza, com o seguinte mote;





“Tiveste a sorte de Judas”.


-- Eras tu que vivias

Roubando na roça alheia

Com a barriguinha cheia

De melão e melancia...

Mas hoje chegou teu dia

É, para que não te iludas,

Sofreste as dores agudas

Em paga de tudo isto,

Mesmo sem venderes Cristo

Tiveste a sorte de Judas!”



A Belarmino de Franca(Seu Belo), rei dos versos e do repente nordestinos, e pelos serviços prestados a nossa Pombal, muito obrigado! Seus feitos foram aceitos e ouvidos por todas as classes sociais desta região, que Deus o recompense e te conceda a Paz!

                                                                        Texto Verneck Abrantes

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